As várias  formas de criação a que se dedicou no decorrer da sua carreira são a base para que Manuel João Vieira argumente sobre o vazio da arte em Portugal. Em conversa, discorre sobre como a evolução artística ficou aquém daquilo que, há 35 anos, eram as suas expectativas. 

 

Enquanto bebe o terceiro café do dia, Manuel João Vieira vai analisando o cantor, o artista plástico, o escritor e o quase político em que, ao longo de 56 anos, se tornou. Atualmente professor na Escola Superior de Artes e Design nas Caldas da Rainha, lamenta ter perdido tanto tempo a explorar facetas suas que terminaram em nada. Aquele que foi um dos fundadores do Movimento Homeostético aposta, nesta entrevista, na projeção do seu “eu” mais sério, desenhando uma linha evolutiva da expressão artística e cultural na sociedade portuguesa, desde os anos 80 até aos dias que correm.

Como é que recorda os anos 90?

Não me recordo porque estava completamente bêbedo. Um dia, acordamos e vemos que já não estamos nos anos 90. Não achei que fossem anos particularmente marcantes, ao contrário dos anos 50, que não vivi; dos 60, que vivi parcialmente; dos 70 e 80, que vivi intensamente. Se tivesse nascido nos anos 80, achá-los-ia característicos como o caraças.

 

Foi precisamente na década de 80 que nasceu o Movimento Homeostético. Qual a sua importância?

Em primeiro lugar, os Homeostéticos exaltam a importância de as pessoas se ligarem para, em conjunto, por meio de uma espécie de brainstorming, criarem a união. É sobretudo um movimento que procura soluções artísticas, ou uma fórmula que nós, ao nosso tempo, encontrámos.

 

Como via a sua vida agora, se esse movimento não tivesse sido criado?

Provavelmente, ter-me-ia dedicado à banda desenhada. Não largaria a arte, mas também aproveitaria para escrever mais.

 

A década de 80 foi igualmente marcada por outro projeto: os Ena Pá 2000. Como surgiram?

Foi um bando de putos de Campo de Ourique que se juntou numa pós-ressaca revolucionária, numa altura em que as utopias deixaram de ser credíveis e em que todas as narrativas do paraíso foram desmontadas. Há um discurso irónico e que vai buscar tudo aquilo que é baixo na subcultura portuguesa – a misoginia, o infantilismo, o sentimento prógnata e o neandertalismo –, sem, contudo, conseguir esvaziar completamente o espírito indelével que fica do paraíso pelo qual se passou.

 

O desmontar das expressões artísticas

 

Considera-se sobretudo músico, pintor ou escritor?

Neste momento, estou sem saber o que sou, mas, definitivamente, aquilo em que me perco mais é na pintura.

 

Há um valor simbólico universal na sua pintura?

Primeiro, há que questionar se os valores simbólicos são universais. Andamos sempre à volta de determinadas narrativas que acabam por utilizar certos símbolos. Agora, se são universais, não sei.

 

Fazem parte de toda a sua expressão artística o vernáculo e a simbologia fálica. Porquê?

Fálica, mas a vaginal também. Se analisássemos do ponto de vista psicanalítico, tem muito a ver com paisagens que são úteros. O engraçado nesse tipo de simbologias é que acabamos sempre por desenhar coisas essenciais.
Se temos uma cruz e desenhamos a parte da mesma que é vertical, dizem que é um falo; se desenharmos um “O” então é uma vagina. Portanto, desse ponto de vista, tudo pode ser transformado nesses elementos primários. Tenho alguma desconfiança em relação a esse tipo de interpretação porque as coisas são mais complexas, sobretudo no campo das artes plásticas, em que se procuram formas e pormenores. Estas coisas não são tão simples. Mas se calhar são.

 

De acordo com a sua experiência, acredita ser possível viver-se da pintura em Portugal?

Normalmente não, mas, em situações anormais, sim. Viveu-se da pintura em Portugal até à crise, mas, ao mesmo tempo, quem vivia da pintura eram só os artistas consagrados que, per si, já eram muito raros. Agora, as coisas já não conseguem voltar ao mesmo nível.

 

Nesse sentido, o que alteraria na expressão artística portuguesa se, de facto, tivesse sido eleito Presidente da República?

Bem, se fosse pensar numa política cultural, havia de ter em conta que esta não pode existir sem que primeiro aconteça uma formação cultural desde o útero materno. Em Portugal, temos como política dar apoio a organizações numerosas que realizam projetos culturais que não podem ser pagos pelo público: orquestras, companhias de bailado e de teatro. Não existe propriamente um apoio aos artistas solitários, como são os pintores, os poetas, os escritores e os músicos, que normalmente têm como companheira a miséria. Portanto, se tivesse sido eleito Presidente da República, pensaria numa política cultural que incluísse os artistas solitários.

 

Considera que existe, atualmente, um vazio artístico?

Não existe um vazio artístico; existe um vazio no mercado de arte, na crítica de arte e na educação artística e estética das pessoas. Isto é engraçado do ponto de vista das expectativas que tínhamos nos anos 80 sobre a evolução da arte e da forma como a mesma se poderia fazer sentir mais na sociedade portuguesa.

 

O que é que ficou aquém dessas expectativas?

Não houve propriamente uma grande evolução. Existe uma evolução na política de alguns museus, no sentido de popularizar a arte, sobretudo a arte contemporânea, em torno de elementos que são mais lúdicos e pedagógicos. Na arte contemporânea, existe cada vez mais uma associação entre aquilo que é o conceptual e o que é a narrativa justaposta da arte, essencial para que a mesma seja entendida. Agora, as pessoas que vão ver arte precisam, de igual forma, da narrativa. A legenda está a tornar-se tão importante quanto a arte em si. Isto, na minha opinião, é uma evolução negativa.

 

A dispersão das projeções artísticas

 

Deu vida a várias personagens durante o seu percurso. Em que aspetos é que Manuel João Vieira, ortónimo, se diferencia dos seus alter-egos?

Na verdade, não sei se me diferencio. Comecei a criar alter-egos para a música porque tinha uma certa dificuldade em assumir-me como cantor e sentia-me realmente muito mal em palco. Sou tímido e, com 20 anos, ainda era mais. Tinha duas formas de conseguir estar à vontade em palco: uma delas era beber uns copos e a outra era criar uma personagem que compusesse as canções, uma personagem infantil, machista, como é, por exemplo, o Elvis Ramalho. Nunca gostei do meu nome. Sinto-me um bocado constrangido com ele, comigo próprio. A partir do momento em que criei o meu primeiro alter-ego, esse processo tornou-se natural e, no fundo, trata-se de uma operação interessante em si própria e que pode ser aplicada em várias situações. Por exemplo, na arte contemporânea, quando se constrói o Orgasmo Carlos, cria-se uma biografia própria, coisa que tentei fazer uma vez comigo mesmo e da qual desisti porque é muito mais interessante fazer biografias de personagens que não existem, que são projeções de uma parte de nós. E, sendo os alter-egos uma parte de mim, não me posso diferenciar deles.

 

Ainda há alguma faceta sua que gostasse de explorar?

Não. Explorei demasiadas facetas que mais tarde não foram dar a nada. Tenho uma tendência muito grande para a dispersão e gostava de me conseguir concentrar numa coisa só. Idealmente, deveria conseguir ter um ritmo, estar cinco horas a dedicar-me a uma coisa e depois mais umas horas a fazer a outra. Preciso de uma espécie de monogamia artística.